gezo marques

artista e diretor criativo\d’arte

Tudo tem um início. Foi numa dessas tardes cheias de “luz boa” e céu de brigadeiro que demos asas a este novo projeto, pisando o palco onde as mãos de Gezo dão forma à imaginação, restituindo vida e desejo a objetos que outros esqueceram.

Do “alto do bairro”, numa rua de plano inclinado, entre a música e a dança, o palco do Gezo-Artista, que é também Gezo-Diretor criativo\d’arte no mundo da publicidade, foi o cenário da nossa tão simpática conversa.

Recebeu-nos um sorriso franco, contador de deliciosas histórias que regaram a tarde. Entre café, música e gargalhadas, conhecemos Gezo Marques.

A tarde estava, foi e será sempre bonita.

gezomarques.com

photos/gezomarques

slideshow na oficina de gezo marques

 

quem é gezo marques?

Ui… o Gezo é um menino muito curioso, acima de tudo… curioso com os materiais, com a relação que tem com as coisas, com o objecto. E depois… com uma necessidade muito grande de materializar. Tenho imenso prazer em dar forma às coisas.
Me lembro que, desde muito pequenininho, gostava muito de desenhar, de criar. Acho que tive uma infância muito feliz. Se calhar por não ter tido muita coisa, era obrigado a desenvolver os próprios brinquedos. Tudo isso amplia a cabeça, eu acho.
Hoje em dia, todas as crianças têm tudo muito rápido. Às vezes não têm nem necessidade de ter a maioria das coisas que têm, mas enfim, é uma forma de demonstrar carinho, amor… são outros tempos.
Eu acho que fui criado muito… “vai brincar lá no quintal”, “vai subir em árvores”, “vai fazer o seu próprio brinquedo” e tudo isso depois tem lados muito positivos na vida de uma criança, na recordação, na forma de se relacionar com as coisas.
Meu pai era meio professor Pardal, inventava coisas, tinha uma oficina onde ele desenvolvia as próprias ferramentas. Era desenhista técnico de máquinas, mas ao fim da tarde ele ia lá e inventava uma máquina de cortar vidro, a máquina de polir não-sei-o-quê… então aquilo sempre ficou registado numa dessas gavetinhas que a gente guarda na memória, em boas memórias. Tive uma infância muito estimulante, na verdade… “vai brincar”, “vai colar”… nunca em casa teve aquela coisa… “ah, não pode sujar, não pode pintar, não pode derrubar no chão”. Foi sempre um infância muito “vai brincar”. “ah tá frio lá fora? Então vem brincar aqui dentro”. Nunca houve aquela coisa da minha mãe dizer “ah, não pode sujar, não pode sujar a roupa, não pode derrubar no chão”, NÃO… “pode tudo! vai brincar!”.

Outro dia, eu estava vendo uma citação e era fantástica! Dizia que “a criatividade não é aquilo que algumas pessoas têm a mais, é na verdade tudo aquilo que lhe foi tirado na infância”. Me sinto uma dessas pessoas, que interage muito com as coisas, porque nada foi tirado na infância, mas sim foi estimulado.

(ahhh… isso é para dizer o que eu sou…)
É tão difícil dizer o que você é mas… eu sou uma pessoa curiosa, uma pessoa que tem necessidade de materializar coisas, de usar as mãos, de deixar as coisas mais bonitas… isso é uma coisa também de infância. Um lado estético muito presente, trabalhado durante a vida. Aprender a ver coisas muito bonitas… não só aquilo que saiu agora, não só a novidade, não só o que está na tendência. Eu sou diretor de arte numa agência de publicidade e diretor criativo, então… você tem que estar muito “plugado” com as coisas, muito “antenado”. Mas depois, a minha relação com os objetos, com as coisas, é diferente, ela não tem essa necessidade de ser tão cool, tão trendy, muito pelo contrário… é dar vida, de novo, às coisas. É embelezar algumas coisas que se calhar já perderam o brilho.
Eu tenho um prazer gigante quando vejo uma coisa que estava encostada, que já não tinha função, utilidade ou beleza, e eu consigo deixá-la assim num estado em que as pessoas depois querem consumir, querem comprar, querem ter. Vira objecto de desejo. Essa sedução me realiza. A forma como eu me relaciono com os meus objetos e depois a conversa que eles têm com o consumidor final me enchem o coração!

Mais coisas do Gezo… o Gezo fez faculdade de comunicação, se formou em Publicidade e Propaganda, numa cidade do interior de S. Paulo e assim que se formou foi para S. Paulo, mostrar o currículo, disputar com milhões de estagiários uma vaga e conseguiu. Na época, teve um diretor criativo que gostou muito do meu trabalho e… o “caipira” foi para a “cidade grande”.
Os meus pais não tinham muito dinheiro, então, uma coisa que eu desenvolvi foi criar coisas com as mãos para ganhar dinheiro… acho que foi o começo das coisas. Eu desenvolvia bijutarias com coisas de sucata, eu fazia as montras das lojas, desenhava roupa e projetos de decoração. Tudo isso, eram formas de usar a cabeça e a mão para arrumar dinheiro, para poder pagar essa estadia em S. Paulo, onde tudo é muito caro.

Que mais que o Gezo é? O Gezo é um brasileiro que já está aqui há muito tempo e há um prazer imenso de estar aqui. Originalmente eu vim para passar um ano… estou aqui há 16! Ainda não fechou meu ciclo cá e não sei se um dia vai fechar. Acho que ando ganhando muito coisa em estar aqui e não há nada como sentir a vontade, inteira, no lugar onde você está.

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falou-nos da criação dos seus próprios brinquedos… qual foi a primeira peça que se recorda de ter criado?

Um carrinho de rolamentos. O meu pai fez a base e depois, obviamente, eu fui lá pintar, personalizar e customizar o carrinho de rolamentos. Aí vai: pinta, põe, risca e aplica, aparafusa e pronto… ficou muito bonito, mas era uma porcaria. Eu acho que era o mais bonito do bairro mas não funcionava. (gargalhadas). Não andava direito, tinha enfeites a mais, não travava… mas era lindo!

é aí então que nasce a sua primeira peça…

… E os contactos com a ferramenta também.
O meu pai era muito organizado com as ferramentas e, obviamente, uma criança olha para aquilo tudo e acha que tudo é brinquedo, para abrir, deixar espalhado, usar como quer, misturar com barro… sabe aquela coisa… usar pincel e nunca lavar, usar formões para abrir latas… o meu pai ficava maluco.
Só comecei a achar graça quando aquilo me ajudou a construir alguma coisa. Então aí eu comecei a zelar mais, a cuidar mais.
Aqui na oficina às vezes você está tão envolvido no processo que você vai deixando e essas coisas estragam mesmo. De vez em quando, eu tenho umas ajudas aqui na oficina e fico em cima. Então me lembra muito meu pai “olha, o formão não é para abrir lata”, “olha, tem de lavar o pincel senão vai ficar duro e amanhã não dá para usar”… me revejo em algumas coisas.

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em relação à oficina… porquê aqui, neste espaço?

O espaço…o palco… a escolha do palco…
Eu acho, como todo o mundo, que o palco começa em casa. O palco sempre começa muito com você mesmo – você e o espelho, você e alguma coisa, acho que é um processo muito interior. O que aconteceu é que, tecnicamente, começou a ser muito difícil fazer as coisas em casa.

É engraçado que o trabalho foi crescendo há medida que o espaço foi crescendo também…
A primeira casa que eu aluguei aqui era alcatifada. Toda! De bege! E me deixava assim “e agora como é que entro na casa? Não pode cair nada, não pode cair uma gota de tinta, não pode sujar, não pode soldar, não pode colar”. Então, eu forrei uma vez o quarto de hóspedes todo a papelão e fiquei mais tranquilo.

Depois, eu adorava sair de uma casa, mudar para outra, alugar outra e transformar a casa. Aí, eu notei que nessas mudanças de casa, eu comecei a aumentar o espaço, vamos dizer, de atelier, onde eu juntava bagunça, onde eu podia pintar, onde eu podia ter minhas coisinhas. Até que chegou numa das casas… a casa era linda, linda, mas tinha um quartinho minúsculo para fazer as coisas… e aquilo me atrofiava um pouco…eu não podia pintar, ou as telas tinham que ser menores, não podia colectar muitas coisas. Então, foi aí que eu que coloquei as coisas na balança e falei “eu realmente preciso, para me sentir inteiro, de um palco um pouquinho maior” e me mudei para uma casa no Chiado que tinha um pé direito altíssimo.

Lembro-me que para a segunda exposição em Portugal, pintei uns quadros que tinham uns dois metros por dois, então precisava de espaço para aquilo… punha as coisas no chão, pintava. Depois, comecei a sentir essa necessidade de sair do material da tela. Adoro texturas e comecei a me interessar pela madeira, pelo ferro… gosto de colectar coisas, objetos… e dentro de uma casa começou a ficar mais complicado.
Quando eu tinha que usar o spray aquilo espalhava pela casa… aí comecei a notar algumas diferenças nos meus objetos – cd’s com tinta, livros com cola… Falei: “ok, está na hora de procurar um espaço” e foi quando eu encontrei esse pequeno palco, que já está comigo para aí há uns 4 anos.
Era uma antiga livraria de pautas musicais… e achei ele muito versátil.

O que me encantou no espaço foi ser um palco mesmo, e o palco é aquele que se pode desmontar todo e montar tudo de novo para o cenário que você quer. Essas paredes já foram alteradas várias vezes, a oficina já foi de várias cores, ela já foi mais escura, já foi mais clara, agora ganhou essa textura toda que eu gosto muito. Ela vai-me acompanhando nessas várias peças que você vai encenando e vai mostrando. Provavelmente… de ano para ano, ela está completamente diferente.
É conforme a peça em cena… e acho que a peça também muda com o mood em que o ator está na altura… às vezes ela está mais dramática, às vezes ela está muito mais leve. A própria produção das peças como não tem um briefing fechado, você vai imprimindo esse seu mood. Eu encaro muito as peças, hoje em dia, como continuação da tela. Quando eu faço esse móvel aqui, para mim é uma tela, porque eu vou escolher o lugarzinho de cada madeira, cada cor, cada tinta, cada espacinho, cada intervalo, como se eu estivesse pintando e escolhendo as cores da paleta. Não consigo diferenciar muito os trabalhos no sentido de “ah o Gezo é um artista que faz telas…” NÃO. Não quero esse rótulo. “ah não, é um artista de móveis”… NÃO. “ah, ele é um escultor”… NÃO. “você é marceneiro?” NÃO. “você é pintor de quadros?” NÃO. “você trabalha só com candeeiros?” NÃO. (risos)

Eu entendo que nós temos a necessidade de catalogar muito as coisas, de por um rótulo para ficar mais fácil, mas nesse caso não vou facilitar para ninguém porque não é a ideia.
Eu acho que brincar é muito isso, é muito livre. Claro que com uma super disciplina atrás, porque esses trabalhos envolvem tempo, dinheiro, compromissos, envolvem uma série de coisas. É um “brincar de adulto” mas ao mesmo tempo não deixa de ser o prazer de uma brincadeira.
E esse espaço é um palco para isso.

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e para além desta versatilidade do espaço e dessa possibilidade de se poder transformar, o que é que considera essencial, num “palco” seu? por exemplo, as qualidades espaciais… ter luz natural…

Eu acho que tem que ter algumas condições básicas. Tem que ter espaço – é a primeira coisa: espaço. Depois, ser um “palco” muito neutro, onde eu possa brincar. Já vi outros espaços, outras oficinas onde era muito limitado, tipo “ah, não pode sujar porque chão é feito de não-sei-o-quê”, “ah o tecto é baixo porque foi feito pelo arquiteto XPTO”… sabe aquelas séries de condicionantes que você fala “ah não é um espaço de brincar, então eu não quero”. Aqui eu posso derrubar a tinta no chão e depois limpar… é uma oficina, PONTO. Um atelier/oficina onde eu posso brincar.

A luz é importante, espaço onde armazenar as coisas é importante, ter um pé direito para eu poder pendurar as coisas e pintar é importante, a necessidade de espaço – metros quadrados – para você espalhar tudo é importante, estar tudo à vista para poder brincar que nem criança… sabe aquela coisa de: abriu a caixa de brinquedos e não sabe ainda com qual quer brincar. (risos)

Outra característica importante: tem que ser uma coisa que facilite a entrada. Outro dia eu fui ver um atelier que tinha uma escada em caracol e falei “o atelier é lindo mas não me dá jeito nenhum. Eu faço o quê com o móvel depois?… largo na porta?” Quando vou comprar coisas… cola, tinta, lixa… paro o carro aqui em pisca alerta, jogo tudo dentro, fecho a porta e sigo até encontrar um lugar.

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quais são os objetos que não podem faltar, de todo, no seu espaço? o que é que é mesmo indispensável?

Objetos… o que não pode faltar são as mãos, basicamente, e muita paciência. Eles não são objetos mas ingredientes que não podem faltar. Inspiração e muita disciplina também não podem faltar.
É difícil porque está no limite de um hobbie mas não é hobbie. É um hobbie muito a sério para ser levado com leviandade! Tem uma disciplina aos fins-de-semana e como o meu tempo é muito curto, então têm que ser dias assim… você tem que chegar inspirado, cheio de energia, com vontade de fazer coisas. Depois me dá muito prazer quando eu saio daqui e vejo que as coisas andaram.

Coisas que não podem faltar… então, inspiração, paciência e disciplina. Depois, ferramentas… hummm, uma boa música e ter um aparelho de som… isso é importante. A máquina de café e uma boa luz também são importantes para trabalhar. Acho que são 3 ferramentas que não podem faltar. O resto vai se dando um jeito.

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e na sua mesa de trabalho?

A mesa? A mesa varia muito…

consoante a peça, não é? A mesa pode ser tanto aquela como pode ser aqui o chão…

A mesa basicamente é onde o holofote está apontado. Tem desde uma série de madeiras, serrote e cola… coisas super delicadas como pérolas e caixas de argolinhas douradas, alicates de precisão, como às vezes são pedaços de madeira, pincéis e tinta ou talheres.
Às vezes, está toda forrada porque eu estou colando coisas, com cola quente, coisas que derretem e sujam muito… a mesa muda conforme o trabalho, é muito dinâmica. Normalmente nunca é muito arrumadinha e muito limpa, mas faz parte do processo. Às vezes, se é para fazer uma coisa muito minuciosa, precisa mantê-la minimamente organizada.

é um caos organizado?

É um caos organizado, porque às vezes eu estou fazendo várias peças ao mesmo tempo, então eu tenho um palco montado onde estou fazendo um detalhe, das madeirinhas e das pérolas. CORTA. Depois eu tenho um outro cenário onde estou com a madeira e a lixa e as ferramentas de madeira. CORTA. Depois na outra ponta eu tenho uma outra peça começada que é um candeeiro e estou acertando os detalhes. CORTA.
São “micro-palcos” dentro desse grande espaço.

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e no mesmo dia pode passar por todos esses palcos/mesas.

Como você precisa rentabilizar o tempo… quando eu estou fazendo uma coisa que vai demorar para secar, por exemplo, então eu vou adiantar o trabalho de pintura de outra. Não há o processo de pegar a peça e finalizar ela inteira, de seguida…NÃO. Tem de existir uma optimização de tempo!

e como é um dia normal aqui na oficina?

Não há dias normais na oficina (risos)… não há. Não há rotina na oficina! Há uma disciplina, mas acho que a palavra rotina nunca se aplica porque são dias muito diferentes. Há é uma disciplina de chegar a horas. Por exemplo, às 10 horas eu estou na oficina já de cafezinho tomado e desperto para começar a trabalhar. O dia começa com: abrir a oficina, colocar as coisas no lugar, acender as luzes todas, colocar uma boa música , me vestir para oficina porque você vem com a roupa da rua. Acho que é uma preparação quase que espiritual. Então tem a roupa certa para pôr, tem um mood para pôr… há um ritual.

Uma vez aqui… o trabalho pode ser completamente diferente, desde eu estar baixado o dia inteiro a montar uma peça, como há dias de pintar as madeiras, de lixar ou, às vezes, há dias em que eu vou intercalando trabalhos porque tem peças que custam muito fisicamente de construir e é super exaustivo.
Então, eu tento manter, dentro da disciplina de produzir coisas, uma diversidade de peças. Se estou baixado colando taquinhos numa peça, então eu salto e vou para um candeeiro, depois salto e eu vou fazer um móvel, depois salto e volto para uma tela, depois salto e eu vou fazer um objecto, uma escultura…
Às vezes eu trabalho lá atrás na mesa, às vezes as peças estão colocadas aqui na frente… Essa “brincadeira” do teatro, como palco, como espaço… eu também gosto. Às vezes as pessoas passam e me veem trabalhando aqui na frente, outras vezes eu estou lá no fundo e aí ninguém vê que eu estou aqui… gosto dessa dinâmica do espaço.
Ah! e… costumo trabalhar num horário por norma até às sete da noite, isso sábados, domingos e segundas.

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se o gezo pudesse visitar qualquer atelier ou oficina de qualquer artista, qual seria?

Uau… visitar ateliers é uma coisa tão bacana. Eu acho que esse projeto que vocês estão fazendo é um projeto difícil porque é uma invasão de espaço… é como num teatro, vocês não estão para assistir a peça, vocês querem ver o camarim, vocês querem ver o bastidor… e o bastidor é onde as coisas acontecem, é onde você vê muito a franqueza do artista, do arquiteto, do pintor ou do cozinheiro. Deixa de ser a parte glamorosa do trabalho final, mas você vai ver como é que é o artista sujo, como o chefe de cozinha lava as panelas, é uma outra dinâmica… Então, eu tenho curiosidade de ver muitos artistas e muitos ateliers… sei lá, tantos espaços que devem ser fantásticos de ver e… ver esses artistas em ação também deve ser uma coisa mágica.

Eu acho que o projeto de vocês é muito isso… é investigar um pouquinho como as coisas acontecem e é lá atrás, é atrás das cortinas que as coisas acontecem – onde serra, onde você está com a tinta, onde você vê as coisas acontecerem… isso é uma coisa fantástica. Então eu tenho muita curiosidade de conhecer uma série de ateliers. Espero que tenha oportunidade de conhecer muitos ateliers, muitos artistas e ver sempre a parte de trás. Mais do que ver a vernissage, que é bacana, é ver o antes da coisa… eu acho que isso é fantástico.

qual foi o maior conselho que já recebeu até hoje?

Nem é um conselho, é uma lei, de Lavoisier que diz “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Acho que é uma excelente lei. Se você aplicar ela como um conselho… acho que é excelente para tudo!

gezo, se não fosse… não é carpinteiro, nem pintor… (risos) Se não fosse artista, digamos assim, nem estivesse no mundo da publicidade, seria…

Posso por uma lista de coisas? (risos)
Eu acho que qualquer coisa que não envolvesse matemática, tabuadas, contas, cálculos e números, basicamente.
Que é que eu faria… se não fosse essas coisas… (risos)
Eu queria ser e experimentar ainda tanta coisa, que humanamente é impossível. Mas provavelmente eu ia gostar de ser também ator, de ter uma atividade ligada com o desporto… experimentar uma vida onde eu seria bailarino, cozinheiro, sei lá… mas sempre alguma coisa muito relacionada com o público, com as pessoas… em comunicar de alguma forma. Eu acho que quando você cozinha, você comunica com as pessoas, quando você é ator você está se comunicando, quando você é artista você está se comunicando…
Então… provavelmente não ia ser nada com matemática (risos).

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gezo, se pudesse escolher um mix-tape neste momento, quais seriam as músicas que selecionava? aquelas que o inspiram aqui na sua oficina…

Sou muito eclético nas escolhas. Você tem desde música brasileira a clássica, até… sei lá, o funk da favela…
A música influencia muito o estado de espírito das pessoas e aqui na oficina não é diferente. Acho que a própria música vai mudando muito dependendo do tipo de trabalho. Há dias onde eu preciso fazer trabalhos muito mais de paciência, com muita minúcia, então aí eu tento colocar uma coisa um pouquinho mais tranquila e tem CDs instrumentais, clássicos.

Depois tem coisas que você precisa dinamizar. Costumo dizer que tem aqueles dias que “baixa a empregada” para arrumar todas as coisas e aí você precisa de uma música muito mais dinâmica, muito mais energética.
Ah, mas tem tanta coisa… vai desde o mais clássico até ao mais fora. Tem desde Kings of Convenience que é muito tranquilo, passando por um pagode do Rio, umfunk carioca, samba… muita música brasileira, muita Maria Bethânia, muito Caetano Veloso, muita Maria Gadú… depois, tem o “minuto Madonna”, PONTO. (risos)
É curiosa essa relação que você tem com as músicas… elas têm o seu tempo. Eu acho que quando a gente faz as gavetas da memória, dos gostos, da coisa boa, a música é um dos ingredientes que está lá.

há uma banda sonora não é?
que acompanha…

Há uma banda sonora. É importante na oficina porque é uma coisa que também está sobre o meu controle. Se eu quiser fechar a porta e diminuir a luz, se eu quiser aumentar a música, se eu quiser ter um cheiro diferente… todas essas coisas despertam o sentido, a lembrança.
Isso tudo são estímulos. Bem usados, se ajudarem a produzir coisas melhores, óptimo!

tem alguma que goste particularmente?

Tenho algumas. Tenho algumas músicas que são intemporais. Eu gosto muito de Buika, depois tem músicas da terra do chá, tem Satie… Maria Bethânia não falta… sempre a musiquinha de Maria Bethânia.

LIDA@oficina_de_gezo_marques08

quem o inspira? 

Pessoas que fazem. Respeito muito pessoas que não falam, que fazem. É uma diferença gigante… tem uns que são óptimos comunicadores, óptimos vendedores, óptimos performers, pessoas que falam muito, mas… tenho um respeito profundo e admiração pelas pessoas que fazem, que põem a mão e dali sai uma coisa, que materializam coisas. Isso é a minha inspiração. Isso me faz vibrar por dentro.

e lugares?

O quintal da minha casa de infância.
Será um lugar sempre muito inspirador. Não precisa ser paradisíaco, não precisa ter praias verdes e coqueiros, mas tem aquele cheiro de casa, de roupa que a mãe pôs no estendal, de sol, de ambiente de casa, de amor, de carinho…isso é super inspirador. Isso é o que guardo como referência de lugares inspiradores.

muito ligado também à memória…

Que é uma memória boa, exatamente. Não é “ah, o Egipto”, “ah, a praia não-sei-quê”, “ah é o Dubai”. NÃO. É o quintal de casa. Onde tinha um pé de limão, onde tinha o estendal cheio de roupa cheirosa a secar no sol… um fogão a lenha no quintal, a oficininha do meu pai…tudo isso é um lugar especial para mim, ou na minha memória.

falando do “lugar” lisboa. o que é saboroso, gostoso, “legal”… em lisboa?

Tanta coisa boa em Lisboa… Hummm, acho que as coisas mais gostosas em Lisboa são as coisas simples. No geral, em Portugal, as coisas simples, despretensiosas, honestas são as melhores de todas, a começar na comida. (risos)

que lugares são especiais em Lisboa?

Lugares especiais em Lisboa… todos aqueles que são muito originais, despretensiosos e simples… são os melhores. Restaurantes, esplanadas, hotéis, cafés… quanto mais simples, mais despretensioso, melhor! Eu acho que aí é que está a alma portuguesa… quando não tem a pretensão de seguir as modas, quando é o que é, isso é o melhor de tudo.
Um bom passeio pela Feira da Ladra num sábado de manhã é uma coisa que me encanta. É despretensioso, não tenta ser “As Pulgas” em Paris. Comer num lugar muito simples, como na Casa da Índia, que é ali na Calçada do Combro, eu adoro. Um bom passeio pelo Chiado, que é um lugar lindo pela luz e localização… é um passeio que eu adoro fazer. Gosto de tanta coisa… (risos) Gosto de tanta coisa em Lisboa!
Gosto de tomar um copo no Bairro Alto, gosto de encontrar pessoas… gosto de pegar o carro e passear pela Marginal e ver praia, pessoas correndo, fazendo exercício.
Hummm… lugares especiais em Lisboa. Gosto dessa proximidade do rio, dessa luminosidade… descer por Alfama, tomar um cafezinho, andar pela beira do rio, tomar um ginja no rossio e comer no Papa-Açorda… tudo isso, dependendo da companhia, se torna especial eu acho.
A cidade proporciona cantinhos especiais em cada esquina. Pela luz, pela geografia dela, pela disposição das ruas, pela simpatia do povo, acho que tudo isso faz dela assim… um lugar mágico sem precisar rotular e estar no guia “Vuitton”.

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slideshow na oficina de gezo marques

 

para terminar… dois desafios:
desafio #01: 
que ferramentas não podem faltar na oficina?

LIDA@oficina_de_gezo_marques_d01

Desafiámos o Gezo a responder-nos com um desenho… e as suas mãos – imprescindíveis ferramentas – ilustraram-se a si mesmas.

(Foto de Gezo Marques)

desafio #02: 
e… o que sente o gezo quando está na sua oficina?

LIDA@oficina_de_gezo_marques_d02

Convidámos a resposta a tomar forma em qualquer suporte… e um dia recebemos esta foto por email. Obrigado Gezo!

(Foto de Gezo Marques)

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