ana isabel ramos

LIDA@casa_de_ana_isabel_ramos03

ilustradora e designer gráfica

A LIDA tem destas coisas: uma admiração profunda pelas pessoas, pelo trabalho que desenvolvem e pelos bastidores onde esse trabalho ganha forma. Também por isso, munimo-nos com frequência da dose de atrevimento certa para contactarmos pessoas que nos inspiram mas que nunca vimos antes. Desta vez não foi preciso. A conversa foi entre amigos e de portas abertas para o mundo.

Amiga desde os tempos em que vivia em Buenos Aires e depois de uma passagem pelo Panamá, a Ana Isabel Ramos está de volta a Lisboa, trazendo para mais perto de nós a sua energia contagiante, deliciosamente inspiradora.

Num dos bairros onde a Basílica da Estrela pontua distâncias e lugares, a amiga Ana recebeu-nos com um sorriso no rosto, olhar brilhante e em sua casa, porque como a própria diz, parte do seu trabalho também ali é feita, enquanto outra se constrói ali perto, no atelier que tem no Príncipe Real.

Num ambiente tingido pela cor vibrante das telas pintadas pela Ana e pautado pelos objetos trazidos das muitas viagens que fez e faz, a nossa contadora de estórias, “curiosa pelo mundo” bordou-nos uma dessas tardes onde as horas não se sentem. Entre risos, chá e bolo de chocolate, falou-nos das suas muitas paixões – da escrita às viagens, do design gráfico ao bordado, da ilustração à pintura…

Mais tarde, lançou-nos o convite para conhecermos também o seu atelier que, numa tarde pintada com cores quentes, adorámos conhecer.

Bem-vindos ao universo colorido de Ana Isabel Ramos.

airdesignstudio

embroidery club

abbrigate*

airing from lisbon

slideshow na casa e no atelier de ana isabel ramos

 

quem é ana isabel ramos?

Bem, acho que sou uma grande apreciadora de bolo de chocolate, para começo de conversa… (risos)

Sou designer gráfica, ilustradora… sou portuguesa… já vivi fora vários anos e acho que quanto mas vivo fora mais portuguesa me torno. Sou tia de duas “bombocas” lindas, sou irmã, mulher, filha… sou muitas coisas! Que mais? Gosto de escrever, gosto de tricotar, gosto de falar, sou muito conversadora! Perguntem ao Paulo, ele dirá. (risos)

Para além disto, sou uma leitora ávida. Gosto muito de ler, de aprender, sobretudo de aprender coisas diferentes, que não têm nada a ver com nada! (risos) Tenho boa memória e às vezes dou comigo a lembrar-me de coisas que mais ninguém se lembra. Há pouco, antes de vocês chegarem, estava a ouvir um podcast que é um concurso, um quiz show norte-americano em que as perguntas são cómicas… Gosto disso, gosto de estar a ouvir um podcast e ficar com uma coisa na cabeça que aparentemente não interessa a ninguém e que depois, num momento inesperado essas coisas “aparecem”.

Aconteceu uma assim em Cabo Verde. Estava com a minha irmã Guida e uma vizinha dela que é cabo-verdiana/holandesa. Estávamos no carro, a ir da cidade da Praia para o Tarrafal e pensei: “Que giro, vou perguntar-lhe com se dizem certas coisas em holandês! Deixa cá ver, quero aprender como se diz ‘cheira a peixe’”… Não sei porque tal expressão me ocorreu. Ela ensinou e esteve ali a corrigir-me até as palavras conhecerem o caminho delas. Entretanto, o dia foi passando e chegámos ao Tarrafal que tem uma baía linda, maravilhosa! Ao descer, de repente sente-se um cheiro intenso a peixe e eu: “Hã? Para tudo! Mauri, tenho uma coisa para te dizer – Cheira a peixe!” Em holandês, claro! (risos) Foi um “momento”… Às vezes divirto-me, outras desespero um bocadinho porque mais ninguém se lembra! (risos)

Isto a propósito de quem é a Ana Isabel Ramos… Quem sou eu? Sou uma curiosa pelo mundo… e estou muito contente de estar aqui na conversa convosco, é tão bom!

qual foi o teu primeiro trabalho enquanto designer gráfica?

Foi num estágio que fiz na Alemanha. No meu 5º ano, fui para lá fazer o “Erasmus” com uma bolsa de estudos daquelas absolutamente lamentáveis e pensei: “Não, isto assim não vai funcionar” (risos). Telefonei para uma série de agências, mandei emails, e chamaram-me de uma – estavam a precisar de um estagiário. Quando eu cheguei lá eles disseram-me que os estágios curriculares na Alemanha não eram pagos e eu no meu alemão completamente atravessado disse: “Pois, eu entendo, mas eu preciso de ser paga”… e eles pagaram-me! (risos)

O meu “Erasmus” foi passado a trabalhar. Na faculdade dão-nos uma sala para trabalhar, que eu dividia com mais dois colegas. Foi passado aí a fazer ilustrações, a trabalhar à tarde na agência e a ter aulas de alemão, dia sim, dia não, porque o meu objectivo era MESMO aprender a falar alemão. Fiz imensos workshops, de serigrafia por exemplo, porque lá tinham imensos e davam-nos créditos por cada um que fizéssemos e fui a imensas exposições. Foram quatro ou cinco meses excelentes: foi a experiência na agência, foi a experiência com os alemães, lidar em alemão com as pessoas. No primeiro mês e meio, chegava à noite e estava exausta, de pensar em alemão todo o dia. (risos)

o teu “erasmus” foi onde, em que cidade?

Eu estava a viver em Frankfurt e a agência ficava num subúrbio, Neu-Isenburg, mas de comboio é cerca de dez minutos, um quarto de hora.

Lembro-me que andava sempre com um dicionário pequenininho. Na agência convidavam-me para as reuniões e falavam sempre em alemão – eles preparavam-se para fazer as reuniões em inglês por minha causa, mas eu pedia-lhes para falarem em alemão. De vez em quando eu dizia: “Com licença”, eles paravam a reunião e eu procurava a palavra!

A minha experiência na Alemanha foi excelente, achei que os alemães eram o máximo. Não tem nada a ver com aquela imagem que nós temos deles, nada. São antes pessoas mais tolerantes e abertas. Foi de facto uma experiência muito gira. Eu trabalhava das duas às seis da tarde, nesse período eles estavam SEMPRE a trabalhar. Eu se tinha uma dúvida quase tinha vergonha de interromper… (risos)

Os trabalhos eram, na maioria, para umas empresas de aço, confesso que não tinham muito a ver comigo, mas a experiência em si foi muito boa. Esse foi o meu primeiro trabalho e ensinou-me que não é preciso fazer noitadas para entregar as coisas, não é preciso ficar até muito tarde no trabalho, basta ser disciplinado. Sim, porque eles às seis da tarde iam-se TODOS embora. E eram os meus patrões que me levavam à estação de comboios para eu não ter de estar à espera do autocarro.

o teu percurso pauta-se muito pelo trabalho enquanto freelancer. lembras-te do TEU primeiro projeto?

Não me lembro, não me lembro mesmo. Lembro-me dos trabalhos da faculdade. Por exemplo, lembro-me do projeto final que fiz no último ano, em “Projeto e Tecnologias”. Tínhamos de abordar as “realidades paralelas”. Estava muito na moda na altura, falava-se muito em realidade virtual, os professores estavam ávidos de “portais” e “reconhecimentos de retina”. (risos)

A minha abordagem explorava essa questão das realidades paralelas, mas através de cheiros! Quis que a minha proposta fosse mais subtil, que a realidade paralela fosse a memória e os cheiros o passaporte. Na altura encontrei uns cheiros que se utilizavam em feiras e stands, para dar aquele toque extra, não visível. Esses cheiros contrastavam com umas imagens projetadas, como forma de provocar memórias – para a pessoa ser “transportada”. Uma das partes era uma viagem à infância. Fui buscar uma daquelas Super-Oitos e pus flash-backs dos filmes que eu achava que ilustravam essa “viagem”, como brincar nas ondas… (risos)

LIDA@casa_de_ana_isabel_ramos02
além do design gráfico, trabalhas nas áreas da ilustração, das malhas e bordados, da escrita… como é que nascem estas paixões?

Eu acho que as paixões já cá estavam, eu é que não sabia – ainda não as tinha descoberto.

A escrita começou com o blogue quando fui para a Argentina. Fui para lá em setembro de 2006 e estive lá 2 meses, num período um bocadinho experimental.  Foi lá que comecei a fazer o blogue “Entre Lisboa e Buenos Aires”.

nunca tinhas tido outros blogues?

Não, esse foi o meu primeiro blogue. Isto foi em 2006 e em 2006 havia blogues, mas não havia muitos. Lembro-me de pensar: “Que estranho estar a pôr um texto meu na Internet… mas só a minha mãe é que vai ler, não há problema.” Mentira! (risos)

Depois foi giro porque eu voltei para Portugal, estive cá seis/sete meses a fechar o atelier, a terminar trabalhos que tinha para fazer (depois em abril voltei para a Argentina) e nesse período em que cá estive continuei a blogar. Foi muito estranho porque uma coisa é escreveres sobre uma realidade totalmente diferente, outra coisa é cá. Então lembro-me de falar, por exemplo, do Natal ortodoxo na Praça da Figueira, que é em janeiro… lembro-me de ir buscar essas pequenas coisas, de procurar coisas no meu dia-a-dia. Foi giro pensar: “Realmente, nós damos tudo como adquirido e não ligamos nenhuma às coisas até que de repente temos que mudar qualquer coisinha, e há muita coisa a acontecer!”

escrevias todos os dias, no blogue?

Acho que não, não. Mas escrevia mais frequentemente do que agora. (risos) Eu acho que devia escrever cada dois, três dias.

e tentavas ir sempre em busca dessas “novidades”?

Eu não ia em busca das “novidades”, acho é que já estava predisposta e quando via alguma coisa, pensava: “Hummm, isto aqui pode ser interessante!” e depois escrevia sobre isso.

Foi assim que comecei o blogue, lá na Argentina. Quando fui mesmo para lá viver, a partir daí tinha um enorme manancial porque era tudo diferente, era tudo novidade! A minha mãe lia e começou mais gente a ler. De repente, tinha várias pessoas a ler, o que de início era estranho. Uma vez, estava eu de férias em Portugal e aconteceu uma coisa muito gira. Eu seguia e comentava, de vez em quando, um blogue de uns portugueses, que na altura tinham ido fazer uma volta ao mundo. Estava eu em Campo de Ourique, nos “Tricots Brancal” e entram eles os dois. Eu olhei para eles: “Ah! Vocês são os-da-volta-ao-mundo!” E eles: “Espera, tu não me digas que és a-do-frigorífico?!” (a história de comprar o frigorífico foi todo um episódio!). E então tivemos um momento de encontro do mundo virtual com o mundo real, ali em Campo de Ourique e foi giro, foi muito giro.

assim se foi consolidando e materializando o gosto pela escrita….
e a paixão pela ilustração, pelo bordado e pelo tricot, como cresceu?

Hummm… cá em Portugal eu tinha atelier próprio. Tinha sobretudo trabalho de design gráfico mas já tinha muita vontade de me dedicar mais à ilustração. Antes, já tinha trabalhado num atelier em que se trabalhava muito nessa vertente e tinha ficado com o “bichinho”. Então, aproveitei esta mudança na minha vida para me dedicar mais à ilustração. Não foi evidente, foram muitas mudanças, muitas adaptações… sentia um certo desenraizamento. Depois comecei a fazer ilustração e a tentar conhecer pessoas. É muito difícil conhecer pessoas quando não há uma comunidade internacional muito grande – e acho que o mesmo deve acontecer aqui. As pessoas têm a sua vida normal e ao domingo vão almoçar com a família, ao sábado vão sair com os colegas da faculdade, já têm a vida muito orientada. E nós não conhecíamos ninguém. O Paulo trabalhava numa multi-nacional e o escalão social das pessoas que são recrutadas na América Latina é muito diferente daquele que é recrutado cá na Europa. Em Portugal, essa empresa vai recrutar a universidades públicas e lá, na América Latina, só recruta em universidades privadas. Na Argentina não se notava tanto, mas no Panamá sentiam-se mesmo muito as diferenças. Mas voltando atrás, à Argentina, de início foi difícil conhecer pessoas locais. Tive aulas de castelhano para estrangeiros e o que aconteceu foi que só conheci estrangeiros que se iam embora! Depois decidi inscrever-me nas aulas de alemão. Cá já tinha estudado alemão e como já tinha feito o “Erasmus” na Alemanha, decidi aprofundar (na verdade, eu adoro línguas estrangeiras, adoro como soam! Adoro a sensação de dizer uma palavra nova de uma língua estrangeira pela primeira vez). Nesse curso de alemão, conheci então duas argentinas… mesmo assim, foi muito difícil. Por exemplo, é muito difícil sermos convidados para almoçar na casa de alguém. Não porque os argentinos sejam especialmente fechados, acho que não é isso. Estando do lado de cá eu também entendo. Uma pessoa nem dá conta que aquelas pessoas estão sozinhas!

Porque não ia trabalhar – não tinha autorização de trabalho – tinha os dias muito vazios e tive de os estruturar. Ia ao ginásio, às aulas de alemão, estudava, ia ao curso de pintura, comecei a fazer várias ilustrações e um dia, de repente, peguei no tricot – “Isto pode ser uma coisa gira, deixa cá ver!”. Inscrevi-me na comunidade online, a “Ravelry” e comecei!

já sabias tricotar?

A minha avó tinha-me ensinado quando eu era pequenina mas eu já não me lembrava muito bem. Aproveitei uma ida da minha mãe a Buenos Aires e pedi-lhe para me ajudar: “Como é que é que se faz que eu não me lembro muito bem? Como é que se montam as malhas? Como é que não-sei-o-quê, como é que não-sei-que-mais?” Comecei a tricotar e uns três ou quatro meses depois combinei o primeiro encontro de tricot em Buenos Aires. Foi um processo lento mas foi a partir daí que comecei a conhecer mais pessoas e muito diferentes. Na pintura também tinha alguns colegas, só que eu tinha aula à segunda-feira, às duas da tarde e, realmente, só pessoas que não trabalham é que podem fazer essa aula… (risos) Foi engraçado porque conheci pessoas muito mais velhas que eu…

Ah, na Argentina também acontece outra coisa: há uma grande divisão entre os católicos e os judeus, mesmo MUITO grande. Eles têm uma necessidade muito grande de nos colocarem ou num lado ou do outro quando nos conhecem. Eles tinham muita necessidade de nos enquadrar numa “gaveta” qualquer, para perceberem com quem é que estavam a lidar. As “gavetas” tinham algumas características que eram aplicáveis e outras que não tinham nada a ver, mas eram as “gavetas” que eles tinham e pronto!

Com o tricot foi mais interessante na medida em que o que nos unia era o tricot, tudo o resto não importava muito. Ser enquadrado numa religião ou noutra ali não era tão importante, não sei porquê… talvez por haver uma maior diversidade cultural, não sei. E sim, foi o tricot que realmente me fez sentir mais integrada na Argentina. O bordado apareceu depois, no Panamá, onde não fazia sentido o tricot porque não está frio… e aí comecei a bordar. Pensei: “Isto não deve ser assim tão complicado!”

nunca tinhas bordado?

Nunca. Não fazia a menor ideia. Vi online como é que se fazia: “Ah, este ponto não é complicado, isto não deve ser difícil”. Também não estava a pensar fazer uma colcha de Castelo Branco, estava naquela do: “Deixa cá ver! Desenhar já desenho, então em vez de ser a caneta sobre o papel deixa cá experimentar o bordado no tecido”. No final não foi assim tão complicado. Foi só começar a fazer, a experimentar.

É engraçado que em Buenos Aires, pertíssimo de casa, havia uma loja de bordados mas pensava: “Não, ainda não chegou o meu momento de fazer bordado”. Cheguei ao Panamá e… chegou esse momento! (risos) Qualquer dia hei-de aprender a fazer os bordados e pontos tradicionais. Acho super interessante!

LIDA@atelier_de_ana_isabel_ramos08
entretanto, dessa paixão pela malha nasce uma empresa…

O abbrigate*, sim, com uma das amigas do tricot.

Essa minha amiga tricota muito rápido e a dada altura já não sabia para quem mais é que havia de tricotar. Então começámos a pensar: “E se vendermos?” Começámos essa empresa, com os quimonos que ela tinha desenhado, e depois foi criar cores e nomes de cores, criar o nome da marca, a marca… 

sendo designer gráfica, esse processo de construção da imagem, da marca foi tarefa tua?

Houve umas tarefas que foram minhas, outras dela. No início, ela tricotou mais, mas também entrou no brainstorming – o nome, por exemplo, escolhemos juntas. Depois eu desenvolvi todo o aspecto, todo o grafismo da marca.

É curioso, a nossa formação entra sempre, sempre, sempre. Mesmo que eu não queira, ela entra. Até na pintura ela entrava, com as composições. O professor de pintura também dizia: “Uma vez designer gráfico, sempre designer gráfico.” (risos) Notava-se sempre. A forma como eu fazia as composições acabava sempre por denunciar a minha formação. No abbrigate* isso também entrou!

Entretanto, a minha sócia tinha outros trabalhos, teve de sair e fiquei eu sozinha com o projeto abbrigate*. Quando fui viver para o Panamá, tinha o problema de ser quente, de não haver lã… tive de reestruturar tudo. Foi então que comecei a pensar nas mantas bordadas e correu muito bem. Primeiro, houve muitos casais que chegaram ao Panamá e começaram a ter filhos. Houve um Baby Boom. Depois as pessoas tinham poder aquisitivo. No início foi mais por “passa-a-palavra”, depois comecei a participar também em mercadinhos de artesãos e foi muito giro. As pessoas iam lá, tocavam, ficavam a saber que se podia personalizar e então encomendavam. O que eu mais gosto nas mantas é o detalhe… eu adoro as coisas detalhadas. Para mim, a parte do bordado não era propriamente uma tarefa, porque era algo que eu fazia comodamente sentada num domingo à tarde, felicíssima. Para coser é que precisava de estar com mais atenção. Coser não era o meu ponto forte, não era uma coisa que eu fizesse descontraidamente. Fui melhorando com o tempo porque fui fazendo mais e mais. Nunca tive aulas de costura…

foi tudo em modo autodidata!

Autodidata, sim! Depois ia ver na Internet: “Ah, espera, isto ficou aqui com umas ondinhas! Como é que se faz? Como é que eu hei-de dizer ondinhas em inglês para procurar?” Então punha-me a pesquisar, depois via vídeos … e aprendia! (risos)

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tu consegues eleger, dessas paixões todas, a tua paixão maior?

(suspiro) Eu acho que a minha paixão maior é a cor. E depois… a cor vem no tricot, vem na pintura, vem em tudo o que faço. Por exemplo, sempre que vinha da aula de pintura fotografava o que tinha feito. Houve um dia em que estava a tirar a fotografia àquilo que tinha feito e por acaso tinha por perto uns novelos de lã que tinha estado a tingir e as cores eram as mesmas: os azuis fortes, os cor-de-rosas, os laranjas. É sempre assim, sempre a cor. A cor saturada, quase nunca misturada.

e como é que te organizas entre tantas tarefas?

Ah, boa pergunta! (risos)

Então, como é que eu me organizo… Eu faço um horário “de escritório”, isto é, começo a trabalhar quando o Paulo sai de casa e acabo quando o Paulo chega. Era assim quando estava na América Latina (em que trabalhava a partir de casa) e aqui é a mesma coisa. Quando o Paulo sai de casa fico a arrumar as coisas e assim que termino, vou para o atelier. Para mim, é muito claro que as horas durante o dia são para trabalhar e não me distraio assim com tanta facilidade. Então, como é que eu faço? Eu tento que a primeira coisa da manhã seja uma tarefa criativa ou algo que me apeteça mesmo, mesmo fazer. Tento ver o email pontualmente, por exemplo, imediatamente antes do almoço e depois, ao final do dia.

Depois tenho uma agenda onde faço a lista das coisas todas que quero fazer. Se há algum ponto que é um bocadinho mais abrangente tento parti-lo em vários que é para ter a sensação que estou a avançar…

és organizada. consideras-te metódica no teu trabalho?

Hummm, sim e não. Há partes em que sim, sou mais metódica, porque são as partes de mais difícil execução. Há outras partes em que não. Quando ainda não encontrei uma solução que me satisfaça, aí deixo-me vaguear um bocadinho, tento ir buscar referências. Por exemplo, ontem comecei a trabalhar para um logo novo que preciso de fazer. Então tentei pensar em ideias e conceitos que poderiam ser interessantes e tomei nota. Depois pensei: “Deixa-me ir consultar ali o catálogo daquele designer” e pus-me assim, a ver. Às vezes, há coisas que me chamam a atenção por alguma razão que eu não sei qual é, e também tomo nota. Quando acho que já fui buscar referências suficientes, “fecho”, vou-me embora, tranquila e no dia seguinte a primeira coisa a fazer é começar a pensar nisso: “Deixa cá ver o que escrevi aqui: “Isto pode ser interessante, este elemento gráfico…” Às vezes pode ser um apontamento gráfico, às vezes é outra coisa. Começo assim e depois passo à parte do método: “Como é que eu vou combinar estes elementos?” Aí é método, é explorar. Ou com o lápis ou mesmo no computador a tentar combinar elementos, até chegar a uma solução, ou duas ou três que me pareçam mais interessantes. Portanto há uma parte que é sem método (se calhar também tem método mas é mais livre) e a partir daí é combinar, combinar, combinar de uma forma, combinar de outra. Aí há o “método”: insistir. A solução não cai do céu…

A verdade é que a pessoa vai por um determinado caminho mas depois pensa: “Então e se agora experimentasse isto? E se agora experimentasse aquilo?” E no fim o resultado não era aquilo que tinhas pensado inicialmente.

Depois… quando estou mais cansada, gosto de fazer tarefas mais relacionadas com a parte de execução – terminar coisas que já estão começadas ou que são mais mecânicas, por exemplo, quando eu já tenho a linha gráfica toda montada e é só executar uma apresentação. É um bom trabalho para a parte da tarde, em que estou mais cansada. Ponho um podcast ou algo assim, e o trabalho flui, quase que automaticamente. O fim do dia é para responder a alguns emails, e deixar já a lista feita para o dia seguinte, que é para quando me sentar a trabalhar, saber o que tenho para fazer.

como é que tu te organizas entre estas disciplinas todas – design, ilustração, tricot, bordados? é conforme o teu estado de espírito ou não? como funciona?

Há dias que destino para fazer certas coisas, por exemplo o texto para o “Portugalize.Me” (blogue no qual também colaboro) escrevo à sexta-feira de manhã e, a menos que tenha uma entrega, é a primeira coisa que faço… porque depois envio durante o dia e a Raquel publica na segunda-feira. Essa tarefa está mais ou menos definida. Agora estou a fazer um curso de negócios e à segunda-feira de manhã faço o TPC do curso. Ontem o TPC foi mais extenso, ocupou a manhã e passou um bocado para a tarde… e depois passei a tarde inteira a “processar” a coisa. Estava a fazer outras coisas mas na verdade estava sempre ali a “processar” toda a informação. (risos) De qualquer modo, o que tento sempre fazer é: tudo o que exige mais concentração, tudo o que exige mais disponibilidade mental é para fazer de manhã.

seja qual for a disciplina?

Seja qual for. Se eu for fazer uma manta, aquilo que exige mais concentração é fazer a combinação dos dois tecidos e ter uma ideia de onde é que vou colocar o texto. A partir daí passa a ser execução. Claro que depois há pequenos momentos de ajustes: “Mudo a cor? Não mudo a cor?” Mas no fundo tudo o que sejam as decisões principais têm de ser feitas logo de manhã. Começar por aí e depois é executar. E a execução é em velocidade de cruzeiro. (risos)

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tendo tu crescido em macau e tendo vivido os últimos seis anos fora do país, era um desejo voltar a portugal?

Sim. Quando aos dezoito anos vim de Macau para estudar em Lisboa descobri que adorava esta cidade! Apaixonei-me por esta cidade linda, cheia de coisas fantásticas. Tem muitos problemas, mais tem coisas fantásticas. É uma cidade única. E quanto mais viajo, mais gosto, mais percebo isso. É única, esta cidade é única! Atenção, eu não sou fã da “filosofia” Lisboa versus “o resto do país”, não sou nada fã. Eu gosto de Lisboa mas o meu coração é grande e tem MUITO espaço. Eu adoro o meu país e adoro muitas cidades do nosso país.

Quando acabei o curso cheguei a pensar que ia para fora, mas arranjei um emprego que foi de sonho – adorei! Comecei a trabalhar na Forma Design, com a Margarida Oliveira, (na verdade comecei a trabalhar lá ainda antes de acabar o curso) e fazíamos trabalhos giríssimos. Adorava o ritmo de trabalho, adorava o ambiente e acabei por não ir. Entretanto a vida mudou, mudou, mudou… comecei a namorar, o Paulo estava a viver em Genebra e foi transferido para a Argentina; por isso é que saí. Mas foi óptimo! Acho que não há nada como viver fora para voltarmos ainda mais apaixonados! Uma pessoa fica muito anestesiada quando está a viver muito tempo no mesmo sítio. Deixa de ver as coisas boas porque passam a ser dados adquiridos, mas nós termos, por exemplo, os passeios calcetados com pedra branca não é um dado adquirido. É uma coisa maravilhosa! Em Buenos Aires têm aquelas lajes, aqueles mosaicos e supostamente cada prédio tem de cuidar da calçada em frente mas ninguém cuida… Acontecia-me andar sempre a tropeçar, nos dias de chuva pisar o chão e sair um jacto de água que estava debaixo da laje e ficar toda encharcada. Isso acontecia vezes sem conta!

Eu tinha MUITA vontade de voltar.

Nós estávamos muito cansados de estar muito longe e a verdade é que a vida na América Latina é infinitamente mais difícil do que a vida em Portugal. Eu sei que Portugal está a passar por um período difícil, mas a vida em termos práticos é mais difícil na América Latina. Aqui uma pessoa tem serviços que funcionam – melhor ou pior mas funcionam – consegue aceder aos bens essenciais, que não são particularmente caros. Na América Latina isso não é assim. Na Argentina (isso entretanto já mudou), na altura em que eu lá estava, os autocarros só funcionavam com moedas, mas não havia moedas a circular. Porquê? Porque o cobre de fazer as moedas era mais caro que o valor facial da própria moeda, portanto as pessoas preferiam ficar com a moeda e depois vender o metal. Portanto, para eu poder ir para a aula de alemão tinha que andar a juntar moedas durante a semana para o autocarro, senão não ia. E por exemplo, íamos ao supermercado, demorávamos dez minutos a escolher os produtos e quarenta minutos a pagar! Porque os pagamentos não são ágeis, porque, às vezes ia pagar uma despesa de “vinte-e-qualquer-coisa” pesos com uma nota de cinquenta e perguntavam-me se eu não tinha trocado. Ou então punham-se a verificar se a nota não era falsa… e faziam isso desde cinco pesos até cem pesos.

Há muitas coisas assim. Por exemplo, cortes de estradas eram todos os dias. Todos os dias havia cortes de estradas! O Paulo nunca sabia se demorava vinte minutos ou demorava uma ou duas horas. Porque a estrada podia estar cortada por alguma razão.

No Panamá têm uma alegria de viver invejável. Mas depois não há uma ação de cidadania, não há envolvimento. Enquanto aqui há muitas coisas que não correm bem, mas temos as associações de solidariedade, associações ecológicas, associações de vizinhos, associações de pais. As pessoas têm a noção de que têm de se juntar para fazer coisas. Lá não. Lá era um total desinteresse pelo bem-estar do outro. Total desinteresse. Desde eu tentar passar a estrada numa passadeira e vir um táxi, passar “por cima” de mim e fazer-me que não, com o dedo, que eu não podia passar, ele é que tinha de passar primeiro…

Depois, uma pessoa vai fazer uma pergunta no Panamá, seja a quem for, e a pessoa vai dizer que não sabe. Por definição, não sabe.
Houve um dia em que saí de casa e ia aos correios abrir a minha caixa de correio (não há entrega de correio ao domicílio) e encontrei um estafeta. Eu estava no bairro ao lado daquele onde ele queria ir entregar não-sei-o-quê. Desce o vidro do carro e pergunta-me: “Por acaso sabe onde é que é o bairro “xis”?” Era o bairro ao lado, ele era um estafeta, e não sabia onde era… Eu disse-lhe: “Sei, é mesmo ali. Eu vou para lá mas eu vou a pé, não vou estar a dar a volta neste trânsito todo. Se quiser, vem comigo.” Resposta dele: “Ah, não.” Comecei a tentar dar-lhe referências:

“Sabe onde é que é a Via Itália?”

– “Não.”

“Mas o senhor é estafeta?”

– “Sim.”

“Sabe onde é (lá não há números de portas, portanto…) a Farmácia Metro?

– “Não.”

“Sabe onde é o Centro Comercial Bal Harbour?”

– “Não.”

“Sabe onde é que é o restaurante Popeyes?”

– “Não.”

Ele era estafeta, e não sabia de NADA! Eu às tantas disse-lhe: “Então não o posso ajudar. Se o Sr. não sabe nada eu não o posso ajudar.”

Era o bairro ao lado, ele era estafeta e ainda por cima ia para uma lojinha que ficava numa área comercial, relativamente fácil de encontrar. Ele nem sequer teve o cuidado de, antes de sair, ver onde era. Estava a tentar ajudá-lo, tentava de todas as formas possíveis, mas às tantas disse: “Então, lamento, não o posso ajudar. Se quiser vir comigo, vem comigo a pé”. Mas não, andar a pé é que não! Era tudo assim…

São choques culturais. Aqui em Portugal vou a uma loja, digo: “Bom dia!” e as pessoas respondem-me! Eu fico maravilhada. Na Argentina é assim mas no Panamá não, ninguém cumprimenta quando entramos, falamos e não obtemos resposta…

tudo isso faz diferença. e caracteriza uma cidade, um lugar.

Faz mossa, muita mossa, sim. E faz-te sentir mais ou menos integrado, acolhido e adaptado. Às vezes a cidade pode ser feia mas as pessoas são queridas e transformam a experiência em algo positivo.

LIDA@casa_de_ana_isabel_ramos09

neste momento, trabalhas em dois espaços, casa e atelier. porque optaste por manter os dois?

Não tenho bem a certeza… mas acho que foi porque considero que uma parte do trabalho é mais “prazer” e outra é mais “trabalho”. (risos) De momento tenho as lãs, os tecidos e os bordados em casa e tudo o que é ilustração e design gráfico no atelier. Às vezes penso: “Num domingo à tarde, se não tiver nada para fazer, o que é que me apetece fazer?” Apetece-me bordar e não estar ao computador a fazer um logótipo, por exemplo. Acho que é isso! (risos)

o que vos levou a escolher esta casa e que qualidades procuraram que a casa tivesse?

Esta casa foi uma descoberta, um achado total. Por acaso, calha a ser na zona onde eu já tinha vivido antes.

Bem… o Paulo tem sempre um ficheiro em Excel™ cheio de parâmetros e faz avaliações. Quando começámos a procurar casa eu pedi-lhe para uma das parcelas ser o factor “gut feeling”, a parte emocional que não dá para explicar. Curiosamente, a verdade é que nós chegámos sempre às mesmas conclusões, eu de um ponto de vista totalmente emocional e ele de um ponto de vista totalmente racional.

A casa foi remodelada por uma dupla de arquitetos e designers de interiores que fizeram um trabalho espetacular. De todas as casas que vimos, era a mais original, a mais bem desenhada e os problemas que poderia ter tinham sido todos resolvidos de forma muito bem pensada. Havia apenas a questão do estacionamento e era um pouco mais pequena do que aquilo que estávamos à procura. Mas adorámos a casa! Quantas mais casas víamos, mais gostávamos desta. No final decidimos comprá-la!

em termos de qualidades espaciais, o que é que vocês andavam à procura? era importante por exemplo, a luz, a relação com o exterior, o espaço amplo…?

A luz era importante e tínhamos pensado em outros aspectos como o pavimento em madeira, estacionamento e aquecimento central. Sim… nós vínhamos do Panamá e para nós tudo o que estava abaixo dos 23ºC era frio (risos). No final, essas ideias pré-concebidas não foram assim tão determinantes na escolha… é difícil de explicar. A casa é um rés-do-chão e é tão gira, tão bem feita, tão bem resolvida! Depois o facto de ter muita luz, de ser quase “transparente” e o facto de ser anónima por fora e por dentro ser uma coisa totalmente diferente. Hummm… acho que isto veio de estarmos alguns anos na América Latina, em que uma pessoa quer é passar despercebida. O que importa é o espaço interior e quem o goza é quem nós convidamos a entrar.

Ah! depois existe também o factor surpresa… uma pessoa vai avançando pela casa e… wow!

Em relação ao recheio, foi o recheio que já viajou connosco. Quando fui para a Argentina fui “de malinha” mas o Paulo tinha ido “de caixotes”, com as coisas dele. Com o passar do tempo, fomos comprando mais algumas coisas… substituímos o sofá por outro escolhido pelos dois, fomos pondo novas peças escolhidas pelos dois… passou a ser a casa dos dois. E a nossa política foi ter sempre os nossos móveis porque, a mudar de sítio a cada três anos, se estivéssemos sempre com mobílias alugadas acabávamos por nunca nos sentirmos realmente em “casa”.

Conheço várias pessoas que dizem: “Não! a minha casa é no meu país de origem e eu aqui estou só de passagem”. Mas está de passagem quatro, cinco, seis anos… não quero isso para mim. Quero sentir que estou em casa, que naquele momento a minha casa é ali. Mesmo que seja num sítio que não aprecio, a minha casa é naquele sítio. Quero entrar em casa e sentir-me feliz e tranquila… a minha casa é o meu paraíso.

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falando agora do teu espaço de atelier, no Príncipe Real, que qualidades e características encontraste para optares por ele?

Foi uma sorte. (risos) Foi muita sorte e acho que realmente não é de desprezar o factor sorte.

Depois de uma conversa com uma amiga que está em Macau, enviei um email a outra amiga que eu sabia que era arquiteta e estava em Lisboa, a perguntar se ela tinha espaço ou se sabia de alguém que tivesse um espaço para trabalhar. Ela respondeu: “Isto deve estar escrito na estrelas porque nós andamos a considerar mudar. Queremos mudar para o Príncipe Real, a ti interessa-te?” Interessava-me sim! Fomos ver alguns espaços no Príncipe Real mas não havia aquele clic. Entretanto, foi-nos dito  que no Sindicato dos Telefonistas estavam a alugar umas salas. Ora, o Sindicato dos Telefonistas é um palacete onde nas águas furtadas ficam os antigos aposentos das empregadas, ou seja, várias salinhas, umas maiores, umas mais pequeninas e… assim aconteceu. Foi espetacular! Eu comecei logo a pensar: “Daqui vou a pé para casa, se me der a neura vou passear aqui no jardim… olho pela janela e vejo o rio”.

Decidimos: “É isto e não se fala mais no assunto”. Reparámos os tectos, as paredes, pintámos e pusemos cera no chão. Mas como disse, foi sorte… eu nunca teria ousado imaginar que ia viver numa casa assim, que ia ter esse outro espaço como é, que podia caminhar ou ter um autocarro que vai de uma porta a outra porta. Agora, partilho o espaço com uma amiga que é arquiteta e designer de iluminação e nas outras salas estão outros ateliers. De repente, eu que vivia isolada e trabalhava sozinha, estou num espaço bonito, numa zona da cidade que é linda inserida numa comunidade de pessoas também a trabalhar por conta própria, também a lutar para continuar a trabalhar… Está a ser uma boa experiência, tive muita sorte!

o que consideras essencial no(s) teu(s) espaço(s) de trabalho?

Luz… acho que é para ver as cores. (risos)

E gosto de ter coisas feitas por mim. Lá no atelier já coloquei na parede um dos bordados que fiz e tenho mais umas coisinhas feitas por mim para “aquecer” o espaço. Aqui em casa também já pusemos uns quadros meus e vamos fazer uma parede com os retratos que fomos tirando à família e a algumas pessoas particularmente “fofas” da família. (risos) Às vezes tiramos uma fotografia e dizemos: “Ah! Esta é digna de ir para “A” parede”, que é aquela parede do conjunto. Como comprámos as molduras na Argentina, para entrar uma nova fotografia tem de sair uma de lá (risos). Por isso é que é assim: “Ah! Isto é bom para ir para a parede… ah! Isto não vai para a parede…”

que objetos não podem faltar?

O computador e a mesa digitalizadora são os objetos essenciais. Depois são os lápis, os pincéis… e gosto de estar rodeada de linhas, de lãs e coisas assim. Tudo com as cores fortes. Cá em casa tenho os materiais dos bordados, as agulhas…

sim, porque tu não és só designer gráfica. há todo um universo, um conjunto de objetos…

…que andam comigo. (risos) Sim, mas eu acho que o computador e a mesa digitalizadora acabam por ser os mais essenciais porque é através deles que eu depois comunico com o mundo, coloco as coisas online e também por causa do site. Agora o iPhone também já faz muita coisa mas, mesmo assim, esses dois instrumentos são essenciais… os outros vão rodando.

se pudesses entrar num qualquer atelier/oficina, para visitar, conhecer, fosse ele de design de comunicação ou relacionado com as outras disciplinas, qual seria e porquê?

É um plano que tenho mas que ainda não concretizei: gostava muito, muito de ir visitar a “Rosários4”, perto de Fátima. É uma empresa portuguesa que fabrica fios para tricot, para arraiolos e para além das lãs de muita qualidade, têm outros fios mais alternativos. Por exemplo, estou a tricotar para o Paulo um cachecol em bambu! Gostava de visitar a fábrica e a loja, claro. (risos) Se há coisa que eu gosto de ir visitar quando vou às cidades são as lojas de lãs e de fios para tricot.

Agora estou a lembrar-me de um episódio que aconteceu no ano passado, em Santiago no Chile. O Paulo teve uma viagem de trabalho e eu fui com ele. Num desses dias, enquanto ele foi trabalhar, fui a uma loja de lãs. Estive aí hora e meia/duas horas na loja, à conversa com a senhora, a perguntar-lhe tudo sobre as lãs… onde tinham sido feitas, quem é que as tinha tingido…

Cheguei à caixa com um monte de lãs – parecia o tio patinhas a mergulhar nas moedas – neste caso, nas lãs. (risos) Quando vi a conta perguntei-lhe:

“Acha que o meu marido se vai querer divorciar de mim depois de ver esta conta?” E ela: “Não! Divorciar não. Pense assim, se ele lhe comprasse joias eram muito mais caras e se calhar não lhe davam tanta alegria. Diga-lhe isso!” (risos)

Mais tarde, fui ao hotel deixar as coisas. Nesse dia o Paulo tinha um jantar e eu fui jantar com umas amigas da minha irmã Guida. Só no outro dia de manhã é que lhe disse:

“Tu achas que…”

E ele: “ Sim, eu vi, eu vi.”

Eu: “E queres o divórcio?”

Ele: “Bom…”

De imediato eu disse-lhe: “Não! Espera! Espera que eu tenho uma coisa para te dizer…” – e usei o argumento da senhora da loja.

Ele: “Muito bem! Só por isso, já está tudo bem. Realmente nunca te ofereço joias, não gasto dinheiro nenhum contigo, acho muito bem que compres as lãs.” (risos)

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qual foi o maior ou melhor conselho que já recebeste?

Bom, eu acho que foi: fala a tua verdade, conta aquilo que te vai no coração.

Eu tento ter sempre muito cuidado em não me expor porque acho sempre: “Ok! Isto depois vai ficar na internet o tempo todo” e há uma série de coisas sobre as quais tenho uma certa vergonha de escrever no blogue. Mas o que eu noto é que sempre que escrevi coisas que me saíram do coração foi quando as pessoas mais reagiram. Por exemplo, nós na Bolívia visitámos o interior das minas de Potosí e aquilo não é uma mina sofisticada cheia de equipamento… não! Aquilo são galerias e galerias… eles sobem por escadas de madeira super precárias e vivem à base de folhas de coca, álcool potável e cigarros. É assim que eles sobrevivem! Quando nós saímos de lá de dentro foi um alívio imenso porque são condições realmente desumanas. Eles eram todos mais novos do que eu e tinham todos um aspecto mais velho… Aquilo tocou-me tanto, tanto, tanto…

Mais tarde, quando estava em casa a ver as fotografias e a escrever no blogue contei todas essas coisas que tinha sentido, ou seja, (em voz baixa) expus-me. Claro que o tema da mina é impactante, mas na Bolívia tudo é impactante! Esse post teve mais visualizações, mais comentários, pessoas que me mandaram emails, pessoas que reagiram ao post de uma forma muito mais intensa.

Quando uma pessoa se expõe e fala de coração os resultados são muito melhores do que aquilo que uma pessoa imagina.

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se não fosses tudo o que és, o que eras?

Ó meu Deus! (risos)

Marinheira sei que não era (risos)… Não era porque houve uma vez que fui com um ex-namorado fazer um cruzeiro e passei tão mal, tão mal, tão mal que pensei: “Não! Em cima de barcos não!” Quer dizer, passar o Tejo, ir fazer um passeiozinho durante um dia no barco de um amigo tudo bem… agora viver num barco, não! Fora de questão. Isso eu sei que não seria. Agora, o que seria é que eu não sei… se calhar poderia ser escritora. (risos) Talvez escritora… acho que sim.

nos teus trabalhos, a música é importante?

Sim, a música é super importante.

se pudesses fazer um mix-tape, quais as músicas que escolherias para te inspirar?

Depende do que estou a fazer. Nos trabalhos que exigem mais concentração, normalmente, estou a ouvir música instrumental, nos que exigem menos concentração estou a ouvir música com voz e batida. Depois gosto muito de ouvir podcasts enquanto estou a bordar. Adoro!

Adoro ouvir Rodrigo Leão quando estou a pensar em alguma coisa. Por falar nisso, aconteceu uma coisa maravilhosa na Argentina. Nas aulas de pintura estávamos sempre a ouvir música e os nossos exercícios eram intercalados… ou poses rápidas de dois a três minutos ou então uma pose fixa durante um mês, em que o modelo ficava sempre na mesma posição. No final da aula expúnhamos os trabalhos todos na parede e sentávamo-nos a falar deles por um bocado. Um dia decidi levar um cd do Rodrigo Leão, creio que foi o “Cinema” mas não tenho a certeza – que por acaso estivemos aqui a ouvir e já parou. (risos) Bem… estivemos a pintar e foi mágico, mágico ao ponto de chegarmos ao fim da aula e estarmos na parte dos comentários e repararmos que os trabalhos tinham saído além do que costumavam sair. E o professor dizia: “Eu não sei o que se passou convosco hoje, mas acho que deve ter sido da música porque todos, sem exceção, foram mais além”.

Aconteceu ali qualquer coisa de muito especial mesmo. Foi magia… uma química qualquer aconteceu por causa daquela música.

para além do rodrigo leão, consegues eleger mais dois ou três nomes que te deixem também nesse estado de inspiração?

Há um cd que eu tenho da Nina Simone que desde o início até ao fim é uma alegria e dá aquela energia ótima para trabalhar. Depois também gosto muito de Jorge Drexler e de Michael Bublé.

quem e o que te inspira?

Quem me inspira? Inspiram-me pessoas optimistas, com energia. Gosto de ir a algumas exposições, gosto muito de folhear revistas, as cores – sempre. Sempre a cor, em todo o lado.

e lugares? que lugares te inspiram?

Gosto muito da praia, gosto muito do campo, gosto muito da montanha… e descobri a paixão do esqui com o Paulo. Quando começámos a namorar ele disse-me: “Eu quero ir esquiar uma semana por ano e gostava que viesses comigo”. Nos primeiros três ou quatro anos eu tinha pesadelos, odiava e morria de medo cada vez que me punha em cima dos esquis… começava a deslizar e caía, depois não conseguia tirar a bota… era tudo um horror!

Aos poucos fui descobrindo que afinal até gostava de esquiar e percebi que não precisava de saber esquiar muito bem para me divertir. Agora eu também sou apaixonada pelo esqui… adoro! Adoro aquela sensação de estar na montanha, do silêncio… de chegar lá acima e ficar: “Uau!”. Gosto de esquiar mas gosto muito mais da montanha, como lugar inspira-me muito. É muito bonito, dá-me calma.

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voltando à paixão por lisboa, o que é que é “saboroso” nesta cidade?

Tudo. A luz, as paredes… a nossa paleta de cores. Uma vez contei a uma amiga argentina (e arquiteta) que o cor-de-rosa fazia parte da nossa paleta e ela ficou admirada: “Prédios cor-de-rosa?! Mas que coisa parola.” Nada! Nada parolo. Faz totalmente sentido neste contexto. O que é “saboroso” em Lisboa? Hummm… a cor, os azulejos, aquele factor surpresa de dar uns passinhos e de repente ter um miradouro com uma vista maravilhosa e claro, a omnipresença do rio na cidade.

quais são os teus lugares favoritos?

A minha casa, o meu atelier, o Jardim da Estrela, o Jardim do Príncipe Real. Gosto muito do miradouro do Adamastor e do Chiado, porque também foi onde eu estudei. Hummm… sim! Estas são as zonas onde me sinto mais em “casa-casinha”.

slideshow na casa e no atelier de ana isabel ramos

 

para terminar… dois desafios:
desafio #01: 
que ferramentas não podem faltar nos teus espaços de trabalho?

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Desafiámos a Ana a responder-nos com um desenho… e a sua mão e uma caneta são as ferramentas imprescindíveis.

(ilustração de Ana Isabel Ramos)

desafio #02: 
e… o que sentes quando estás nos teus espaços de trabalho?

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Convidámos a resposta a tomar forma em qualquer suporte… e um dia recebemos esta frase desenhada pela Ana. Obrigado Ana!

(ilustração de Ana Isabel Ramos)

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